segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Pegue-pague


Difícil dizer se foi a sensação boa de sentir as pedras de gelo no fundo do copo esvaziado ou se foi o próprio wisky que o fez sentir vinte anos mais jovem. Era a primeira vez nos últimos onze anos que ele pôde sentar em uma mesa de bar, relaxar sem pressa e reparar nas pessoas a sua volta. Nas mulheres, para ser mais preciso. Conseguia encarar nos olhos, sem culpa, todas que passavam; reparar em todos os seus detalhes sem disfarçar – e eram tantos!

Colocou o copo na bancada e ,enquanto procurava a comanda para pedir outro drinque – algo mais forte –, ele avaliou custos e resultados da empreitada com o detetive particular. “Valeu cada centavo, considerando que não vou mais deixar que ela gaste meu dinheiro com outro”. Pediu a bebida ao garçom. Enquanto esperava, se entusiasmou com a visão que teve quando uma garota ruiva debruçou-se sob a bancada, bem do seu lado, para alcançar o porta-canudos. A guria reparou no olhar guloso do tiozão ali do lado. Bandida que era, não dispensou um olhar mais direto quando saiu, deixando ser focada com o canudo nos lábios, um olhar de quem olha dissimuladamente para trás, por cima dos ombros, e um sorriso daqueles que nem precisa mostrar o branco dos dentes para estimular toda a imaginação de um macho.

Ele não era feio, daquele tipo que as mulheres desviam o olhar quando se cruza na rua. Mas também não era bonito, do tipo que se detém o olhar quando reparamos nas pessoas de uma calçada lotada. Na verdade, teve seus anos de prestígio quando jovem, época na qual os anos de exército e futebol lhe proporcionava prestígio entre as meninas da rua. Dessas, ele escolheu Kátia e apenas Kátia. E por toda vida. Religioso, resolveu casar virgem, como manda o livro sagrado em um versículo que ele alegava existir, mas não se lembrava se no velho ou novo testamento. Quanto a ela, julgou desnecessário perguntar-lhe as intenções, considerando o bom comportamento e o título de moça de família.

Se seguiu à risca uma palavra sagrada, não conseguiu cumprir a ordena “ide e mutiplicai-vos” por uma razão não muito bem explicada nas passagens relatadas pelos urologistas e que nenhuma das nove novenas rezadas conseguiu curar. Hoje, de novo um garotão solteiro, fica feliz por não ter filhos, o que complicaria o divórcio.

A liberdade tem suas desvantagens, mas ele nem se importa. Uma savana inteira para caçar, mas ele foi domesticado. Acostumou-se a conseguir o que queria sempre do modo mais fácil: flores, presentes, jantares românticos, carinho. E nada disso existia naquele bar. Talvez para ele já nem houvesse mais o que caçar, nem brotos para comer. Todavia, também não se contentava com o que já estava na metade final da vida.

Ao fim da terceira dose, estava pronto. Agora se sentia um caçador. E, o melhor, que era dia do caçador. Mas... como escolher a presa? Como cercar? Como abatê-la? Não, ele só sabia para onde arrastá-la. E, acostumado com a jaula, é possível que tivesse dificuldade até para lidar com o preservativo.

Não, ele não estava pronto. Faltava entender como os outros caçadores fazem. Só que, olhando de fora, parece tão simples! Tão direto! Tão... natural?! Talvez fosse isso: deixar que o instinto de sobrevivência (ou de reprodução) agisse por si só. “Para essa reação dar certo, falta mais um copo de wisky”, pensou.

Com o copo cheio, localizou na pista a menina do canudinho. Ela se exibia, embora não olhasse para ninguém, intimidando qualquer aproximação receosa. Ele se levantou da mesa, ainda sem saber o que fazer, e não pensou em nada disso no trajeto até ela. Foi reto, olhos fixos, sem se importar com as presas mais fáceis que poderia optar. Era ela e apenas ela. Só parou quando a presa estava ao alcance das garras. De costas, ela só daria conta do ataque quando não pudesse mais escapar. Mas ele não avançou. Ficou ali, parado, sem se preocupar que o ato poderia prejudicar toda a estratégia. Só foi capaz de fazer o que aprendeu na vida em cativeiro: esperar que ela o notasse e – quem sabe? – adivinhar o que ele desejava.

Quando ela se virou, fitou-o parado, com o copo na mão. Ela, por outro lado, sentia-se bem à vontade só com a companhia do cigarro, e por isso não parou de dançar. Ele pensou em desistir, preparar-se melhor, ou quem sabe voltar para a vida de cativeiro. Talvez conseguisse perdoar a ex-mulher. Antes que se decidisse, ela lhe tomou o copo de wisky, engoliu a metade em uma virada, e o puxou pela camisa rumo à escada.

Meia hora depois, soube que brincar de caçador com uma presa amarrada custa R$ 300 o programa e que não tem muita graça. “Você poderia ser menos direta...”. “Se você estiver disposto a pagar a mais pelo tempo que vamos gastar nesse pega-pega e ainda quiser correr o risco de não pegar, por mim tudo bem!”.


“O preço da liberdade é a eterna vigilância, mais a taxa de desembarque” (Luis Fernando Verissimo)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Revolução dos iPods

Foto: Saddul

Se há alguma verdade no dito “toda brincadeira tem um fundo de verdade”, ela se aplica perfeitamente aos episódios de Os Simpsons. Sempre gasto 20 minutos do meu dia assistindo às reprises da Globo, e dois dias pensando no quanto faz sentido cada uma de suas piadas. Esta semana, por exemplo, Godofredo, meu amigo imaginário, comentava comigo sobre aquele episódio em que a Marge faz esculturas de palitos de picolé. No fim, mostra nossa sociedade no futuro, com os iPods dominando a terra. Para mim, um blasé sem tamanho. Para o Godô, uma premonição.

Eu cheguei no mesmo ponto onde pego meu ônibus, mas estava um pouco atrasado e por isso preocupado se o próximo iria demorar. Virei-me para uma moça que também esperava para perguntar se o Volta a Morro tinha passado recentemente. Vendo que ela estava com um fone no ouvido (e possivelmente não me escutaria), abortei a operação. E como ela estava do meu lado, para chamar a atenção seria preciso ir para a direção onde ela olhava ou cutucá-la. Nenhuma das opções me pareceram discretas.

–Viu? Entendeu o que eu disse? – Godofredo comentou comigo. – É cada um no seu fone, desfrutando a autonomia de escolher com qual trilha sonora levam a vida, experimentando o gostinho de controlar ao menos alguma coisa na produção desse filme de roteiro estranho. Ou então preferem abstrair a enfadonha realidade e se refugiar no mundo do que ouvem. O resultado é isso: vanerão enquanto limpam a casa, pagode enquanto passam pela rua onde o ex trabalha, rap no trajeto do ônibus, rock na fila do banco que não anda ou Voz do Brasil durante a caminhada.

– Tá, mas qual o problema? A vida vai ser a mesma com ou sem fone de ouvido... – perguntei.

– Essa menina, por exemplo. Aposto que ela quer aumentar seu círculo de amizade, conhecer gente nova, história de vida diferentes. Mas como vocês vão virar amigos se não conseguem conversar?

– Mas essas pessoas não escutam som o dia inteiro. Uma hora precisam tirar a escutar seus amigos do mundo real.

– E continuam compartilhando a mesma visão de mundo, a mesma rotina e as mesmas comunidades do Orkut. Onde é que a tolerância entre nisso tudo? Quando é que vão ter contato com valores diferentes? É isso que no futuro ajudará a entender o ponto de vista do próximo.

– O que isso tem a ver com os iPods dominarem o mundo?

– Desunidas, as comunidades ficam mais frágeis. Isto é, se conseguirem perceber algum problema com o fone no ouvido...

– Teoria da conspiração, Godofredo. Teoria!

– É, deve ser. Então também liga seu mp3 que eu vou ali conversar com a amiga imaginária da menina e traçar planos de como nossa raça vai conduzir o mundo. Porque, se continuar assim, o que não vai faltar é amigo imaginário.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Reformas

Estou fazendo de tudo para fugir do meu livro de inglês. Minha última desculpa para não sentar na mesa e estudar é reformular meu blog. Faz tempo que ele demanda uma reforma. E o mais engraçado é que tenho conhecimento técnico em CSS pra deixar isso aqui com uma cara bem melhor. Mas, com no passado já tinha tentado (antes de aprender CSS no TCC), nunca tive saco pra reformar o blog. Comecei hoje de manhã. Mas como tenho mania de começar várias coisas ao mesmo tempo, talvez até o fim da vida eu termine - um pouco antes do meu plano de acumular meu primeiro milhão de dólares.

Update: sabe que não? Graças ao mau tempo e à chatice do meu livro de inglês, resolvi futricar no meu CSS até dar certo. Será então que meu primeiro milhão já está proximo?!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Alvorada



Godofredo, meu amigo imaginário, comentava há pouco comigo (com quem mais ele comentaria?) o quão bom é acordar cedo. Principalmente quando não se tem nada de urgente a ser feito pela manhã. Eu concordei, embora acredite que ele só disse isso porque me conhece bem e sabe que dormir cedo e acordar mais cedo ainda sempre foi minha preferência. “Note como o dia é mais gentil, despertando-nos com o sobro ameno das brisas e não abruptamente, com a claridade e calor do sol”, poetizou my “brotha”.

No fundo no fundo, o Godô queria me mostrar o lado bom de deixar de receber a grana a mais que deveria chegar no fim do mês, resultado do frila que eu iria começar. Mas não rolou o trabalho (ganha uma 7 Belo quem descobrir a razão econômica ¬¬ ). E o Godofredo, como bom amigo e no alto de sua perspicácia, já tratou de mostrar-me as vantagens dessa mudança de planos e de me alegrar.

Então, hoje acordei mais cedo, tomei com a Priscila um café com leite, procurei a noite anterior na memória – quando eu ainda lamentava a volta a minha rotina de piso salarial -,mas procurei em vão. Acordei mais leve, sem nenhuma preocupação me martelando, e nem quis saber de ler o jornal. Nada de entrevistas, nem de deadline, uma manhã inteira para fazer e pensar. A receita bossa nova de viver: um cantinho, um violão e muita calma pra pensar.

Tratei de aproveitar o que tenho para pagar de IPTU semana que vem, caminhando na
beira-mar. O Godô foi junto – agora ele não desgruda mais! No caminho, lamentamos não haver naquele horário (pouco depois das 7h) muitas meninas caminhando. “É que o segredo de beleza deve ser dormir bem”, comentei. “Se fosse assim, você seria modelo”, alfinetou Godofredo, que nunca perde uma oportunidade, já que sabe que perder o amigo é impossível.

Praticamente só velhinhos caminhavam naquele horário. De repente, cruzo com um, que me olha e diz “bom dia!”. Godô e eu nos olhamos, espantados. A última vez que um estranho me deu “bom dia” na rua – e talvez a única – foi lá no interior do interior de Goiás, onde eu acreditava que o gentileza tinha ido morar. Descobri que não. Ou talvez aquele senhor tenha trazido de lá nas férias, ou era procurador da Srita. Gentileza Bonsmodos Silva, ou mesmo representante comercial da marca. Algo assim.

O fato é que , graças a aquele senhor, meu dia começou bem, do jeito que eu gosto: com a mente esvaziada o bastante para preenchê-la com coisas que realmente importam.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Meu amigo Godofredo

Godofredo é meu amigo imaginário. Quer dizer, agora voltou a ser. É que já fazia um bom tempo que não conversávamos. Segundo ele, eu virei um cara chato, que só quer saber de ler coisas enfadonhas, que escreve coisas sem graça e que só quer saber de fazer companhia para a namorada (ele pediu que eu não comentasse esse item aqui no blog. Mas tudo bem, ela nunca lê esta bosta mesmo). Enfim, há quase um ano ele me disse que eu havia me desinteressado pelo avesso da vida. Eu sabia que ele tinha razão, mas não era fácil voltar a ser o que eu era. E ele então ia se afastando de mim, cada vez mais.

Godô, como eu gostava de chamá-lo, me acompanha desde os meus cinco aninhos. Foi quando meu irmão nasceu e eu deixei de ser o único "chuco-chuco" da família. Aquele pentelho recém-nascido recebia muito mais atenção que eu. Daí apareceu o Godofredo, que me ajudou a me divertir por contra própria desde então. Eu diria que Godô é o cara. É ele que me dá as idéias mais criativas e me conta os pontos de vista que eu e outras pessoas raramente notamos. Confesso, sem a presença de meu amigo imaginário, sou um ser sem graça.

Tem seus defeitos, é claro. Pra começar, é muito desbocado. Fala mal do que quer que seja aqui no meu ouvido. Ou bem demais, dependendo do caso. Para tudo Godô tem uma opinião (neste momento, por exemplo, ele está me criticando, dizendo que este texto está pobre e me mandando reescrever. Tudo, desde o título.). E antes fosse uma opinião formada. A peste é confusa demais. Muda de opinião como minha namorada troca de roupa (sabe que esse negócio dela não aparecer aqui no blog até que é legal?). Se eu deixar, ele me transforma de democrata a republicano como se fosse o mesmo que deixar o DEM e virar tucano.

Apesar dos defeitos, sempre o considerei um cara bacana. Por isso fiquei bem feliz hoje quando, notando que a síndrome de vira-latas havia me atacado, ele resolveu sentar-se ao meu lado do ônibus e desenhar um "why so serious?" em mim. "Desencana, cara. A graça da vida está nas oito horas que sobram entre o sono e o trabalho", disse ele. Concordei. Então fizemos as pazes e ele prometeu ajudar a atualizar o blog com mais frequência.

E, quer saber? A fase áurea desse blog só existiu porque o Godofredo tava aqui do lado, dando pitaco em meus pitacos. Chega mais, Godô!