Pegue-pague
Difícil dizer se foi a sensação boa de sentir as pedras de gelo no fundo do copo esvaziado ou se foi o próprio wisky que o fez sentir vinte anos mais jovem. Era a primeira vez nos últimos onze anos que ele pôde sentar em uma mesa de bar, relaxar sem pressa e reparar nas pessoas a sua volta. Nas mulheres, para ser mais preciso. Conseguia encarar nos olhos, sem culpa, todas que passavam; reparar em todos os seus detalhes sem disfarçar – e eram tantos!
Colocou o copo na bancada e ,enquanto procurava a comanda para pedir outro drinque – algo mais forte –, ele avaliou custos e resultados da empreitada com o detetive particular. “Valeu cada centavo, considerando que não vou mais deixar que ela gaste meu dinheiro com outro”. Pediu a bebida ao garçom. Enquanto esperava, se entusiasmou com a visão que teve quando uma garota ruiva debruçou-se sob a bancada, bem do seu lado, para alcançar o porta-canudos. A guria reparou no olhar guloso do tiozão ali do lado. Bandida que era, não dispensou um olhar mais direto quando saiu, deixando ser focada com o canudo nos lábios, um olhar de quem olha dissimuladamente para trás, por cima dos ombros, e um sorriso daqueles que nem precisa mostrar o branco dos dentes para estimular toda a imaginação de um macho.
Ele não era feio, daquele tipo que as mulheres desviam o olhar quando se cruza na rua. Mas também não era bonito, do tipo que se detém o olhar quando reparamos nas pessoas de uma calçada lotada. Na verdade, teve seus anos de prestígio quando jovem, época na qual os anos de exército e futebol lhe proporcionava prestígio entre as meninas da rua. Dessas, ele escolheu Kátia e apenas Kátia. E por toda vida. Religioso, resolveu casar virgem, como manda o livro sagrado em um versículo que ele alegava existir, mas não se lembrava se no velho ou novo testamento. Quanto a ela, julgou desnecessário perguntar-lhe as intenções, considerando o bom comportamento e o título de moça de família.
Se seguiu à risca uma palavra sagrada, não conseguiu cumprir a ordena “ide e mutiplicai-vos” por uma razão não muito bem explicada nas passagens relatadas pelos urologistas e que nenhuma das nove novenas rezadas conseguiu curar. Hoje, de novo um garotão solteiro, fica feliz por não ter filhos, o que complicaria o divórcio.
A liberdade tem suas desvantagens, mas ele nem se importa. Uma savana inteira para caçar, mas ele foi domesticado. Acostumou-se a conseguir o que queria sempre do modo mais fácil: flores, presentes, jantares românticos, carinho. E nada disso existia naquele bar. Talvez para ele já nem houvesse mais o que caçar, nem brotos para comer. Todavia, também não se contentava com o que já estava na metade final da vida.
Ao fim da terceira dose, estava pronto. Agora se sentia um caçador. E, o melhor, que era dia do caçador. Mas... como escolher a presa? Como cercar? Como abatê-la? Não, ele só sabia para onde arrastá-la. E, acostumado com a jaula, é possível que tivesse dificuldade até para lidar com o preservativo.
Não, ele não estava pronto. Faltava entender como os outros caçadores fazem. Só que, olhando de fora, parece tão simples! Tão direto! Tão... natural?! Talvez fosse isso: deixar que o instinto de sobrevivência (ou de reprodução) agisse por si só. “Para essa reação dar certo, falta mais um copo de wisky”, pensou.
Com o copo cheio, localizou na pista a menina do canudinho. Ela se exibia, embora não olhasse para ninguém, intimidando qualquer aproximação receosa. Ele se levantou da mesa, ainda sem saber o que fazer, e não pensou em nada disso no trajeto até ela. Foi reto, olhos fixos, sem se importar com as presas mais fáceis que poderia optar. Era ela e apenas ela. Só parou quando a presa estava ao alcance das garras. De costas, ela só daria conta do ataque quando não pudesse mais escapar. Mas ele não avançou. Ficou ali, parado, sem se preocupar que o ato poderia prejudicar toda a estratégia. Só foi capaz de fazer o que aprendeu na vida em cativeiro: esperar que ela o notasse e – quem sabe? – adivinhar o que ele desejava.
Quando ela se virou, fitou-o parado, com o copo na mão. Ela, por outro lado, sentia-se bem à vontade só com a companhia do cigarro, e por isso não parou de dançar. Ele pensou em desistir, preparar-se melhor, ou quem sabe voltar para a vida de cativeiro. Talvez conseguisse perdoar a ex-mulher. Antes que se decidisse, ela lhe tomou o copo de wisky, engoliu a metade em uma virada, e o puxou pela camisa rumo à escada.
Meia hora depois, soube que brincar de caçador com uma presa amarrada custa R$ 300 o programa e que não tem muita graça. “Você poderia ser menos direta...”. “Se você estiver disposto a pagar a mais pelo tempo que vamos gastar nesse pega-pega e ainda quiser correr o risco de não pegar, por mim tudo bem!”.
“O preço da liberdade é a eterna vigilância, mais a taxa de desembarque” (Luis Fernando Verissimo)

